A empresária Wsslane Almeida de Sousa, de 37 anos, natural do Maranhão e moradora de Porto Murtinho, afirma estar sofrendo ameaças, ataques preconceituosos e tentativas de boicote ao restaurante que administra por declarar apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no domingo (25).
As ofensas começaram a circular em grupos de WhatsApp depois do segundo turno das eleições. Com medo de sair de casa e preocupada com a segurança da família, ela procurou a Polícia Civil e o Ministério Público nesta terça-feira (27).
Em mensagens e áudios encaminhados à reportagem, participantes de grupos de WhatsApp defendem que pessoas identificadas com a direita deixem de frequentar o estabelecimento. Os ataques também fazem referências à origem nordestina da empresária, com insultos sobre sua aparência, sua trajetória pessoal e sua condição de mulher.
Em uma das gravações, uma pessoa diz que Wsslane deveria voltar ao Nordeste e afirma que não compraria sequer um copo de água em seu restaurante. Em outra, a empresária é ofendida por ter deixado a região onde nasceu para trabalhar em Mato Grosso do Sul, chamado pelo autor das declarações de "terra do agro".
"Vai lá para o Nordeste, infeliz!", diz um dos áudios. Em outra gravação, a pessoa afirma que a empresária deveria voltar para junto de sua "raça", em uma referência preconceituosa à origem regional dela.
As mensagens também incluem ataques pessoais, insinuações sobre o passado da empresária e comentários depreciativos sobre sua aparência. Em um dos grupos, um participante sugere que pessoas contrárias ao posicionamento político de Wsslane deixem de gastar dinheiro no estabelecimento.
"Deixar os petistas dar lucro pra ela já que é tão bom assim", escreveu um dos participantes. Outra mensagem prevê uma queda no movimento do restaurante em razão da posição política da proprietária.
Em dois áudios compartilhados em grupos de WhatsApp, a empresária é alvo de ataques preconceituosos relacionados à sua origem nordestina e à preferência política. Em uma das gravações, uma pessoa afirma que Wsslane deveria voltar ao Nordeste para “comer calango”, questionando o fato de ela ter se mudado para a “terra do agro” para ganhar dinheiro e apoiar Lula.
“Do meu dinheiro você não vê! Um copo de água eu não compro no seu restaurante!”, declara.
Na segunda gravação, as ofensas fazem referência à aparência física da empresária e à pobreza, além de sugerirem que ela deveria retornar à região de origem. “Vai lá para o Nordeste! Vai lá para junto da sua raça, maldita!”, diz a pessoa, em uma manifestação de preconceito regional.
Wsslane afirma que tomou conhecimento da dimensão dos ataques nesta terça-feira, quando recebeu capturas de tela e gravações compartilhadas por conhecidos. Segundo ela, os primeiros episódios de hostilidade começaram ainda no domingo, durante as comemorações do resultado eleitoral.
"É muito dolorido porque eu cheguei aqui muito pequena [...] Eu nunca imaginei que iria passar isso. Porque eu sou muito militante, então eu sou muito falante. Eu não gosto de esconder o que eu penso. Acho que a gente deveria viver num país assim", desabafou.
A empresária relata que funcionários também foram abordados por pessoas que criticavam sua posição política. "No domingo teve carreata e já ficaram, viram meus funcionários na frente e já falaram: 'Não vai na onda da tua patroa. Não escuta o que a tua patroa fala'", contou.
Além das ofensas virtuais, Wsslane afirma ter recebido relatos de que pessoas teriam ido procurá-la na academia. Ela diz que a situação provocou medo e insegurança.
"Agora eu estou me sentindo ameaçada, boicotada. Eu nunca fiz mal nenhum pra ninguém. Hoje estou me sentindo coagida, com medo de sair na rua. Sabe o que é dois, três grupos falando mal de você, te ameaçando, indo atrás de você em carro, simplesmente porque você pensa diferente?", questionou.
História em MS – Natural de Santa Inês, no Maranhão, Wsslane foi criada no Tocantins e se mudou para Porto Murtinho em 2022, para acompanhar o marido, que trabalha em uma obra na cidade.
Ela começou a empreender no ano seguinte, preparando marmitas em casa. Durante oito meses, trabalhou sozinha até conseguir alugar um ponto comercial. Posteriormente, ampliou o negócio e passou a administrar um restaurante maior.
"Desde a minha primeira votação eu sempre votei do mesmo jeito. Nunca pensei que ia ter que viver na pele me atacarem por conta do meu voto. Porque eu sou empresária, não posso me expressar? Não posso falar o que eu gosto?", afirmou.
Atualmente, o restaurante tem seis funcionários com carteira assinada, segundo a proprietária, e atende trabalhadores de aproximadamente quatro ou cinco empresas instaladas na região.
Diante dos ataques, Wsslane chegou a considerar deixar a cidade e vender o negócio.
"Eu pensei em ir embora ontem, porque já ouvi algumas coisas, mas não imaginava que era tão grave. Já pensei, sim, em vender", revelou ela em entrevista ao Campo Grande News.
A situação também atingiu sua família. A empresária conta que uma das filhas começou a receber mensagens relacionadas às ofensas contra a mãe. O episódio ocorre em um período de dificuldades pessoais, já que Wsslane perdeu a filha mais velha em fevereiro deste ano. "Um monte de gente mandando mensagem pra ela. Já pensou ela ver pessoas falando isso da própria mãe?", lamentou.
Apesar das ameaças relatadas, o restaurante continuou funcionando normalmente nesta terça-feira. A empresária afirma que procurou a Polícia Civil e o Ministério Público para registrar os acontecimentos.
Resultado eleitoral – Porto Murtinho registrou vitória de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25). Conforme os dados da Justiça Eleitoral apresentados para o município, o candidato recebeu 2.965 votos, equivalentes a 52,83% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 2.647 votos, ou 47,17%.
A diferença foi de 318 votos. Ao todo, 5.706 eleitores compareceram às urnas, e as 30 seções eleitorais do município foram totalizadas.
No resultado nacional, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
As manifestações contra Wsslane ocorreram durante os dias seguintes à votação. A reportagem teve acesso a mensagens e áudios com ofensas à empresária, mas não há confirmação independente sobre os episódios de perseguição presencial relatados por ela.
Os registros apresentados não permitem determinar se todos os participantes dos grupos concordaram com as ofensas, nem estabelecer a responsabilidade individual por eventuais crimes. A identificação dos autores e a apuração das ameaças cabem às autoridades competentes.