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Vostok: lealdade ‘arrastou’ secretária de Reinaldo para esquema de propina no Governo de MS

Segundo PF, chefe de gabinete foi indicada pelo governador para marcar encontros para entregar notas frias que esquentavam propina

23/09/2020 09h05 Atualizada há 4 semanas
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Por: Redacao Fonte: Evelin Cáceres e Guilherme Cavalcante
Chefe de gabinete de Reinaldo, indiciada na Operação Vostok (Reprodução, Gov.ms.br)
Chefe de gabinete de Reinaldo, indiciada na Operação Vostok (Reprodução, Gov.ms.br)

Cristiane Andreia de Carvalho dos Santos Barbosa trabalha para Reinaldo Azambuja (PSDB) desde Brasília, quando ele era deputado federal, e virou chefe de gabinete quando o tucano assumiu o Governo de Mato Grosso do Sul, em 2015.

Assim começou a saga que fez ‘Cris’, braço direito do político, ser indiciada aos 51 anos por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e por integrar organização criminosa, segundo a Polícia Federal.

A servidora que cuida da agenda oficial do governador de Mato Grosso do Sul, segundo o Inquérito Policial 4-2019-1, da Dicor/PF (Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal), cometeu os delitos porque teria tomado conhecimento e participado da negociata que trocou benefícios fiscais por propina para o grupo de Reinaldo.

Além disso, Cristiane foi flagrada em pelo menos 3 ocasiões no crime de ‘lavagem de dinheiro cometido de forma reiterada e por intermédio de organização criminosa’ ao tentar esconder fortuna que recebeu em espécie de José Rocardo Guitti Guimaro logo nos primeiros meses de Reinaldo Azambuja a frente do Governo de MS, em 2015.

Segundo o ‘Relatório Conclusivo de Polícia Judiciária’ que determinou o indiciamento de mais de 20 pessoas no Inquérito 1190, no STJ (Superior Tribunal de Justiça), os valores movimentados por ‘Cris’ em apenas 3 recebimentos em espécie totalizaram R$ 492.664,00.

Assim como Cristiane, Reinaldo Azambuja, parentes dele, políticos aliados, comerciantes e fazendeiros de Mato Grosso do Sul estão entre os indiciados após as investigações da Operação Vostok. De acordo com a Polícia Federal, a ‘organização criminosa’ seria comandada pelo governador de MS. Como o procedimento tramita sob sigilo, o STJ não se manifesta.

Lealdade e confiança

‘Muito leal ao governador Reinaldo Azambuja’. Assim é descrita por servidores Cristiane Andreia. Como chefe de gabinete do governador sul-mato-grossense, é ela quem cuida da agenda do político e filtra todos os contatos do chefe do executivo em MS. ‘Cris’ o acompanha desde Brasília, quando atuou como secretária parlamentar.

Agora, mesmo indiciada pela Polícia Federal na Operação Vostok, segue nomeada na Governadoria.

Questionado oficialmente pela reportagem em contatos documentados, o Governo do Estado de MS informou que ainda não há nenhum procedimento administrativo contra a servidora Cristiane Andréia de Carvalho Barbosa.

“O indiciamento não é prova da culpabilidade da conduta, cabendo ao Judiciário a manifestação a respeito do caso”, alega o Governo. A nota acrescenta, que Cristiane não será afastada “porque não há condenação e deverá ser respeitado o direito ao contraditório e à ampla defesa, para que o Judiciário possa decidir sobre a questão”.

O Jornal Midiamax também procurou Cristiane Andreia na sala da Governadoria onde cumpre expediente. Por telefone, foi informado que a servidora não se encontrava no gabinete e ela não retornou os contatos até o momento.

A relação de lealdade e confiança, segundo tucanos que frequentam a sede do Governo no Parque dos Poderes, teria sido a armadilha que arrastou Cris para a suposta organização criminosa indiciada por ter causado prejuízo milionário aos cofres públicos de Mato Grosso do Sul.

Aumento no salário após prisões da Vostok

O prestígio de Cris sempre foi público. A servidora foi homenageada em 2016, ao lado da primeira-dama Fátima Azambuja, com a medalha Imperador Dom Pedro II, do Corpo de Bombeiros. É a mais alta honraria da instituição, entregue a pessoas que ‘prestaram relevantes serviços’.

No Parque dos Poderes, Cristiane recebia oficialmente dos cofres públicos R$ 10,4 mil de salário até o final de 2018.

Porém, três meses após as primeiras prisões em decorrência da Operação Vostok, o salário dela quase dobrou. Passou a receber remuneração fixa de R$ 19,6 mil, segundo dados do Portal da Transparência do Governo do Estado.

O Jornal Midiamax perguntou ao Governo de Mato Grosso do Sul se o aumento de quase 100% no salário de ‘Cris’, teria algo a ver com as primeiras prisões em decorrência da Operação Vostok, mas não houve resposta.

Rastro do dinheiro nos celulares

Mesmo assim, a servidora revelou à Polícia Federal ter visto Valdir Aparecido Boni, o diretor de tributos da JBS, por pelo menos quatro vezes no gabinete de Reinaldo Azambuja (PSDB), em pleno Parque dos Poderes.

Ela ainda admitiu que teria intermediado, por telefone, reuniões entre Reinaldo e os diretores da empresa. Do ramal fixo dela na Governadoria e do celular pessoal, foram descobertas 32 ligações para a secretária de Wesley Batista e também para Boni.

De acordo com o diretor de tributos da JBS, Reinaldo Azambuja apresentou Cristiane, informando que sempre que as notas frias usadas para receber mais de R$ 67 milhões em propina da empresa estivessem prontas, seria ela quem entraria em contato.

Portanto, somente entre agosto e dezembro de 2016, Cristiane teria ligado cinco vezes para Boni, quando este veio de São Paulo ao gabinete de Reinaldo receber as notas frias em mãos.

Mediante acordo de colaboração, a secretária de Wesley Batista encaminhou ao STJ conversas de WhatsApp entre ela e Cristiane combinando as reuniões.

Saques e entregas em dinheiro vivo

A Polícia Federal também suspeita que Cristiane tenha recebido, pessoalmente e em dinheiro vivo, remessas da propina ao governador Reinaldo Azambuja.

Dados de localização do celular revelam que ‘Polaco’ estava sempre próximo à Governadoria de Mato grosso do Sul logo após realizar saques em grandes quantias.

As antenas usadas pelos celulares também revelaram diversas vezes quando Polaco fez saques de valores da conta bancária e viajou de Aquidauana para Campo Grande.

A chefe de gabinete teria recebido ao menos R$ 492,6 mil, segundo aponta o cruzamento de dados feito pela investigação e encaminhado ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) em três ocasiões diferentes.

Nos saques realizados nos dias 20 de março, 15 de abril, 16 de abril e 27 de julho de 2015, houve registro coincidente de localização entre Cristiane e Polaco na tarde em que sacou R$ 200 mil.

Na véspera, Rodrigo Silva, filho de Reinaldo Azambuja, ligou para Polaco. No dia 15 de abril daquele ano, Polaco saca R$ 91,6 mil e R$ 98 mil e, no dia 16, ele e Cristiane são flagrados novamente em localização próxima à Governadoria.

Já em 27 de julho, Polaco saca R$ 103 mil e segue, no mesmo dia à tarde, novamente, para a região a Governadoria, onde também está a servidora até às 17h42 daquele dia, bem depois do fim do expediente.

Há dois anos

Deflagrada em 12 de setembro de 2018, a Operação Vostok faz ‘aniversário’ de dois anos neste mês. No dia em que foi iniciada pela Polícia Federal, a ação ‘balançou’ as estruturas do Parque dos Poderes levando políticos para a cadeia e revelando esquema de corrupção milionário em Mato Grosso do Sul. Após indiciamento, o caso aguarda análise do STJ (Superior Tribunal de Justiça).

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