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Incidência de covid no futebol de SP supera as mais altas do mundo

Taxa de infecção entre atletas foi de 11,7%, próxima à observada em profissionais da linha de frente do combate à pandemia

29/03/2021 às 19h30
Por: Redação Fonte: R7 - Karina Toledo, da Agência Fapesp
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Pesquisadores analisaram exames de mais de 4,000 atletas - (Foto: THIAGO CALIL/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO - 13.3.2021)
Pesquisadores analisaram exames de mais de 4,000 atletas - (Foto: THIAGO CALIL/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO - 13.3.2021)

Estudo conduzido na USP (Universidade de São Paulo) revela que a incidência de infecção pelo novo coronavírus entre os atletas da Federação Paulista de Futebol durante a temporada de 2020 foi de 11,7% – um índice equivalente ao de profissionais de saúde que atuam na linha de frente do combate à pandemia.

Para chegar a esse número, os autores analisaram retrospectivamente quase 30 mil testes de RT-PCR aplicados em 4.269 atletas ao longo de oito torneios, sendo seis masculinos (Taça Paulista, Sub-23, Sub-20 e as três divisões do Campeonato Paulista) e dois femininos (Campeonato Paulista e Sub-17).

Ao todo, 501 exames confirmaram a presença do SARS-CoV-2. Também foram analisados 2.231 testes feitos em integrantes das equipes de apoio (profissionais da saúde, comissão técnica, dirigentes, roupeiros etc.) e 161 deram positivo, ou seja, 7%.

“É uma taxa de ataque bem superior à observada em outros países. Na liga dinamarquesa de futebol, por exemplo, foram quatro resultados positivos entre 748 atletas testados [0,5%]. Na Bundesliga [da Alemanha], foram oito casos entre 1.702 jogadores[0,6%]. Mesmo no Catar, onde há um risco moderado de transmissão comunitária, o número foi menor do que o nosso: 24 positivos entre 549 avaliados [4%]. Comparados aos outros casos de que se tem registro, portanto, nossos jogadores se infectaram entre três e 24 vezes mais”, conta à Agência FAPESP Bruno Gualano, professor da Faculdade de Medicina (FM-USP) e coordenador da pesquisa.

No artigo, que ainda está em processo de revisão por pares, os autores afirmam que os números provavelmente estão subestimados.

O grupo teve acesso à base de dados do laboratório comissionado pela Federação Paulista de Futebol para testar os atletas.

No entanto, os jogadores de times que disputaram torneios nacionais tiveram a opção de fazer os testes em laboratórios comissionados pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Esses resultados, portanto, não entraram na análise.

De qualquer modo, os dados de São Paulo indicam que o vírus afetou igualmente os homens e mulheres avaliados.

Já quando se comparam os resultados dos atletas e dos membros do staff, nota-se que a taxa de ataque foi maior no primeiro grupo. Porém, os casos graves foram mais frequentes no segundo grupo, que tem uma média de idade mais alta e condições de saúde mais heterogêneas.

“Esse é um dado que preocupa. Os poucos casos graves – entre eles um que evoluiu para óbito – foram registrados entre os integrantes do staff. Embora nossos dados sinalizem que os atletas tendem a desenvolver apenas sintomas leves ou mesmo serem assintomáticos, eles podem atuar como vetor de transmissão para a comunidade. Em geral, são indivíduos com uma vida social muito ativa”, afirma Gualano.

O pesquisador ressalta que a política que prevê o rastreio de contactantes nunca foi implementada no Brasil e, portanto, não é possível mensurar o impacto das infecções secundárias provocadas pelos jogadores em seus domicílios ou círculos sociais

Onde está o risco

Devido às medidas de distanciamento social implementadas no Estado São Paulo em março de 2020, as partidas de futebol foram suspensas temporariamente e retomadas no dia 14 de junho.

Para minimizar o risco de transmissão da COVID-19, o Comitê Médico da Federação Paulista de Futebol criou um protocolo que prevê testagem frequente dos atletas e equipes de apoio, isolamento de infectados, rastreio de contactantes (dentro do ambiente esportivo) e uma série de medidas de higiene.

“Os casos apareceram toda vez que houve fuga do protocolo”, afirma Moisés Cohen, presidente do Comitê Médico.

“É um ambiente controlado, onde os riscos são monitorados e minimizados, dentro do possível, fazendo testes a cada dois ou três dias. Para aqueles que saem [da concentração] e voltam os testes são diários. Também implementamos rastreamento de contatos em caso de RT-PCR positivo e todos os cuidados de proteção, como EPI [equipamento de proteção individual] e álcool gel”, explica.

Segundo Gualano, de fato o risco de transmissão do vírus durante as partidas tem se mostrado pequeno. Mas há outros fatores que comprometem a eficácia do protocolo, que o professor da FM-USP considera tecnicamente adequado.

“Funcionaria se fosse aplicado na Dinamarca ou na Alemanha. Conta-se muito com o bom senso dos atletas, que são orientados a ir do Centro de Treinamento para casa e a manter o distanciamento social e as medidas não farmacológicas de proteção nas horas de descanso. Mas aqui no Brasil uma boa parcela não segue essas regras e não sofre qualquer tipo de punição. Além disso, viaja-se muito para disputar as partidas. Os times menores vão de ônibus, comem em restaurantes e ficam provavelmente mais expostos do que os jogadores de elite. Nossa desigualdade social permeia também o futebol”, diz Gualano.

O estudo evidencia que alguns times foram bem mais afetados. Um deles chegou a registrar 36 casos positivos, sendo 31 em um único mês. Sete times tiveram mais de 20 casos confirmados e 19 registraram dez ou mais casos. Para Cohen, todos os surtos são consequências de quebra do protocolo.

Gualano vê com grande preocupação o fato de o Campeonato Paulista ter sido retomado na cidade fluminense de Volta Redonda duas semanas após os jogos terem sido suspensos no Estado de São Paulo, em 11 de março, diante do recrudescimento da pandemia e da emergência de variantes virais mais agressivas.

“Enquanto a transmissão da COVID-19 não for mitigada, qualquer setor que reabra representa um risco elevado de contágio. A única alternativa segura seria isolar completamente o futebol dentro de uma bolha, como fez a NBA [Associação Nacional de Basquete, dos Estados Unidos], a um custo de US$ 170 milhões. Ou fecha ou isola”, defende o professor da FM-USP.

A pesquisa foi realizada no âmbito da coalizão Esporte-COVID-19, formada por pesquisadores do Hospital das Clínicas (FM-USP), Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital do Coração (HCor), Complexo Hospitalar de Niterói, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia e Núcleo de Alto Rendimento Esportivo, com o apoio da Federação Paulista de Futebol.

O consórcio tem o objetivo de acompanhar as possíveis consequências de longo prazo da COVID-19 em jogadores de futebol e outros atletas de elite.

Além de Gualano e Cohen, dois bolsistas de doutorado da FAPESP assinam o artigo: Ana Jéssica Pinto e Ítalo Ribeiro Lemes.

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